Há uma forma muito elegante de te mentir.
Não te dizer uma mentira. Dizer-te apenas uma parte da verdade.
As mentiras, reconhece-las. Uma parte da verdade, não: parece certa, porque o é — só que está incompleta. E aquilo que falta, precisamente porque não o vês, não o procuras.
Muitas apps de finanças pessoais funcionam assim.
Não te contam uma coisa falsa. Contam-te uma coisa mais pequena do que a verdade. Mostram-te um pedaço do teu dinheiro, bem feito, bem colorido, e deixam o resto de fora. Tu olhas para esse pedaço, sentes-te bem, fechas a app tranquilo.
E és mais pobre do que julgas.
Não porque a app te tenha roubado alguma coisa. Porque te fez olhar para o lado errado enquanto o dinheiro se ia embora pelo outro.
A armadilha da simplicidade que retira
Há uma coisa que é preciso dizer, antes de mais.
A intenção, muitas vezes, é boa. As finanças pessoais assustam. Muita gente nunca abre uma folha de contas na vida porque, à primeira vista, parece coisa de contabilistas.
Então alguém pensou: vamos torná-la fácil. Tiremos os números incómodos. Mostremos só o essencial. Arredondemos. Agrupemos. Escondamos o detalhe.
O problema é que, no dinheiro, o detalhe não é um incómodo. É a substância.
Quando uma app "simples" arredonda o café para zero, não te está a fazer um favor. Está a dizer-te que o café não conta. Mas o café conta — não o café isolado, claro. A soma de todos os cafés do ano, essa conta, e muito.
Simplicidade não quer dizer retirar substância.
Quer dizer mostrar a substância de forma que se entenda.
São duas coisas diferentes, e quase opostas. Uma app pode ser claríssima e completa ao mesmo tempo. Difícil de construir, mas possível. O atalho de muitas apps é outro: clareza obtida deitando fora as peças incómodas. Mais fácil de fazer. E deixa-te nas mãos um mapa a que faltam pedaços.
Os pequenos números que fazem os grandes buracos
Façamos um exemplo. Os nomes e os números são inventados, servem apenas para dar forma à coisa.
O Marco está convencido de que se gere bem. Tem uma app que lhe diz quanto gasta com a casa, com as compras, com as contas da luz e da água. As rubricas grandes. Essas, tem-nas sob controlo.
O que a app não lhe põe à frente, porque lhe parecem valores desprezáveis, são as migalhas.
O café no bar de manhã: 1,30 euros. Mais do que um, em certos dias.
Os cigarros: 6 euros por dia.
A sandes fora ao almoço quando não lhe apetece prepará-la: duas, três vezes por semana.
Aquela pequena subscrição que paga a 4,99 por mês e de que já nem se lembra. Aliás, tem três assim.
Tomados um a um, são valores insignificantes. O Marco ignora-os, e a app — para "não o sobrecarregar" — esconde-os dentro de um "diversos" ou arredonda-os para fora.
Ponhamo-los em fila.
Café, digamos 2 euros por dia: dá cerca de 730 euros por ano.
Cigarros a 6 euros por dia: mais de 2 000 euros por ano.
As sandes fora, digamos 7 euros três vezes por semana: à volta de 1 000 euros por ano.
As três subscrições esquecidas: quase 180 euros por ano, por coisas que não usa.
Total: quase 4 000 euros por ano.
Quatro mil euros. Desaparecidos em coisas tão pequenas que o Marco nunca as considerou despesas a sério. São a viagem que diz não poder pagar. São meses de cobertura que não pôs de lado. Estão ali, todos os anos, e ele não os vê — porque a app que devia mostrar-lhos decidiu, por ele, que eram pouco de mais para contar.
Esta não é uma história sobre o café ou sobre os cigarros. Cada um gasta como entende, e está muito bem assim.
É uma história sobre outra coisa: a diferença entre escolher gastar esse dinheiro e não saber que o gastas.
O Marco não tem um problema de café. Tem um problema de nevoeiro. Julga ter uma situação, e tem outra. E essa distância — entre como pensa que está e como está de facto — é exatamente o que lhe rouba a calma, sem que ele consiga dar-lhe um nome.
"Mentir por omissão" é o inimigo número um
Quando comecei a pensar no Cashfulness, perguntei-me qual seria o verdadeiro inimigo. Não uma app concorrente. Um comportamento.
E o inimigo número um encontrei-o aqui: a app que te mente por omissão.
Não te diz o falso. Simplesmente deixa peças de fora. E cada peça deixada de fora é um buraco no teu mapa, um ponto em que a realidade e aquilo que vês deixam de coincidir.
O pior é que estes buracos não incomodam logo. Pelo contrário, ao início dão jeito. Uma app que te esconde as despesas pequenas faz-te sentir mais organizado, mais no controlo, mais rico. É agradável.
É agradável como a parte da verdade bem contada. Parece certa. Descansa-te.
Só que é uma calma falsa.
A calma verdadeira vem de saberes como estás. A calma falsa vem de não olhares para as coisas incómodas. Parecem-se por fora — são opostas por dentro. A primeira aguenta mesmo quando chega a surpresa. A segunda é precisamente a surpresa que não viste chegar.
Sobre isto o Cashfulness tem uma posição clara, e quero dizê-la sem rodeios: preferimos dar-te um número incómodo e verdadeiro a um número cómodo e falso.
Mesmo quando esse número não te agrada. Sobretudo quando não te agrada.
A quadratura: o mecanismo que não deixa escapar nada
E aqui chego à parte que mais me importa, porque não é uma promessa de marketing. É uma propriedade da forma como a app está construída por baixo.
O Cashfulness não assenta num sistema "simplificado". Assenta nas partidas dobradas.
Explico, porque é o coração de tudo.
As partidas dobradas são uma técnica contabilística que as empresas usam há mais de quinhentos anos — nascem em 1494. A regra é uma só: cada movimento de dinheiro regista-se duas vezes, em dois lados que se equilibram. Um lado chama-se Débito, o outro Crédito.
Não te deixes assustar pelos termos, e sobretudo não os interpretes mal: "Débito" e "Crédito" não querem dizer que deves dinheiro ou que tens direito a ele. São apenas as duas etiquetas dos dois lados de cada registo. Duas faces da mesma moeda.
Dou-te o exemplo do café de há pouco.
Pagas 1,30 de café a partir da conta. As partidas dobradas registam duas coisas em conjunto: que o bar te deu um café (um lado) e que da tua conta saíram 1,30 (o outro lado). As duas coisas têm de encaixar. Mesmo valor, dois lados.
Agora vem o melhor.
Se somares todos os Débitos do teu livro de contas e todos os Créditos, tens de obter exatamente o mesmo número. Se bate certo, está tudo bem. Se não bate, há um erro algures — falta qualquer coisa.
Este controlo chama-se quadratura.
É o guarda silencioso do sistema. E faz uma coisa que as apps "simples" não podem fazer, por construção: não deixa escapar nada.
Pensa nisso. Numa app que arredonda, aquele 1,30 do café pode desaparecer e ninguém dá por isso — o sistema não o espera, não o procura, não sente a sua falta. Nas partidas dobradas, não. Se aquele café não está lá, os dois lados deixam de encaixar, a quadratura não bate certo, e o sistema assinala-to.
Nada é pequeno de mais para ser visto.
Não porque o Cashfulness seja minucioso por gosto. Porque é a única forma de teres um número final que seja verdadeiro.
O número que, no fim, é mesmo teu
Tudo isto serve para uma coisa só: dar-te um dado que podes olhar e em que podes confiar.
Esse dado é o teu património líquido: tudo o que possuis menos tudo o que deves. Não o saldo da conta, não o salário. A tua posição verdadeira, hoje.
No Cashfulness chamo-lhe ponto de situação — vou buscá-lo à vela, é a posição exata do barco na carta num dado instante. Falei dele por extenso noutro artigo, aqui interessa-me apenas um ponto.
Esse valor vale apenas se por baixo não faltar nada.
Um património líquido calculado numa app que esconde as despesas pequenas é um património líquido inflacionado. Diz-te que estás melhor do que estás. É outra vez a parte da verdade bem contada: bonita de ver, e falsa.
O património líquido que sai das partidas dobradas, pelo contrário, tem por baixo a quadratura a montar guarda. Cada euro passou por ali. Incluindo o café de 1,30. Por isso podes olhar para ele e confiar — mesmo quando é mais baixo do que esperavas.
Um número verdadeiro mas incómodo podes usá-lo para decidir.
Um número agradável mas falso só podes olhá-lo enquanto aguenta. Depois a realidade apresenta a conta, normalmente no pior momento.
E prefiro de longe dar-te o primeiro.
Ver tudo não quer dizer cortar tudo
Quero desfazer já um possível equívoco, porque é importante.
Dizer "nada é pequeno de mais para ser visto" não quer dizer "tens de deixar de tomar o teu café".
Não é isso.
O Cashfulness não te diz para cortar. Não te diz que o café é um desperdício, que os cigarros são um erro, que devias renunciar. Não decide por ti, nunca. Não é esse o seu ofício.
O seu ofício é fazer-te ver. Ponto.
Uma vez que vês — que esses pequenos gestos fazem 4 000 euros por ano — a escolha continua a ser toda tua. Talvez decidas que o café no bar de manhã é um dos prazeres do teu dia e vale cada cêntimo: ótimo, mas agora é uma escolha, não um hábito invisível. Talvez descubras três subscrições que não usas e as canceles em cinco minutos. Também essa é uma escolha tua.
A diferença não está entre gastar e não gastar.
Está entre gastar às cegas e gastar de olhos abertos.
As apps que te mentem por omissão mantêm-te de olhos fechados e chamam-lhe serenidade. O Cashfulness abre-te os olhos e afasta-se. De olhos abertos, certas coisas talvez as mudes e outras não — mas és tu a decidi-lo, sabendo. Isso é consciência. É a coisa que a calma falsa nunca te dará.
A calma verdadeira custa uma pequena coragem
Fecho com a coisa mais honesta que te posso dizer.
Uma app que te faz ver tudo, ao início, é menos cómoda do que uma que te esconde as coisas incómodas.
No primeiro dia em que olhares para os teus números completos — cafés e cigarros e subscrições esquecidas incluídos — podes sentir um pequeno aperto. A realidade, às vezes, é um pouco mais apertada do que a contamos a nós próprios.
Mas esse aperto é a coisa mais preciosa que te pode acontecer.
Porque daí em diante deixas de contar histórias a ti próprio. Tens um dado verdadeiro debaixo dos pés, e de um dado verdadeiro podes mover-te. De uma história cómoda, não: só podes esperar que se parta.
As apps que te fazem sentir rico enquanto te empobrecem oferecem-te uma bela sensação hoje, e apresentam-te a conta amanhã.
Eu prefiro fazer o contrário. Uma pequena incomodidade hoje — olhar para tudo, a sério — em troca de uma calma que aguenta no tempo, porque assenta no que existe, não no que gostaríamos que existisse.
O dinheiro é uma ferramenta para comprar tempo e liberdade. Não o geres melhor fechando um olho. Geres melhor mantendo os dois abertos, com calma.
The calm side of money. Mesmo quando os números, ao início, nos obrigam a olhar.
— Vittorio