Nenhum instrumento nasce do nada.
O Cashfulness é filho de anos de leituras, de erros meus, de intuições emprestadas de pessoas que disseram coisas inteligentes sobre dinheiro muito antes de mim.
Achei que era honesto dizer-te de onde vêm essas ideias.
O que se segue não é uma classificação. Não é sequer uma série de recensões. É uma bibliografia comentada: cinco livros, e para cada um a razão por que conta e que pedaço do pensamento do Cashfulness ilumina.
Um aviso que não te quero esconder: um dos cinco fui eu que o escrevi. É o quinto. Encontra-lo no seu lugar, contado com a mesma medida dos outros quatro — nem mais, nem menos.
Pu-lo ali porque é coerente com os outros, não porque é meu.
E se destes cinco livros não leres nenhum, também está bem: tentei escrever cada ficha de modo que leves para casa uma ideia útil mesmo sem abrir o livro.
1. George S. Clason — The Richest Man in Babylon (O Homem Mais Rico da Babilónia, 1926)
Comecemos pelo mais antigo, e pelo mais simples.
É uma coletânea de parábolas publicada a partir de 1926 por George Clason, um americano. As histórias passam-se na antiga Babilónia: o protagonista é Arkad, o homem mais rico da cidade, que explica a quem lho pergunta como lá chegou.
A ideia central é uma só, e entrou na linguagem comum: paga primeiro a ti próprio.
Antes da renda, das compras, das contas da casa, põe de lado uma parte fixa daquilo que entra — o livro diz um décimo. Essa parte é tua, e não se toca. Todo o resto é aquilo com que vives.
Clason acrescenta uma segunda regra, menos citada mas igualmente importante: essa parte não deve ficar parada. Tem de ser posta a trabalhar, com prudência, para que produza por sua vez — e tem de ser protegida de quem promete ganhos fáceis.
Poupar é apenas o primeiro passo. O segundo é não deixar que te levem aquilo que poupaste.
Dito assim parece banal. Não é: quase ninguém o faz mesmo, porque quase ninguém tem um sistema que lho torne automático.
E é aqui que o livro toca no Cashfulness.
A disciplina de que Clason fala não é privação. É ordem. Não te pede que abdiques de alguma coisa: pede-te que ponhas as coisas na sequência certa.
O problema é que a ordem, se todos os meses depender da força de vontade, mais tarde ou mais cedo salta. O registo regular dentro do Cashfulness serve exatamente para tirar a ordem das mãos da vontade: vês, está ali, diz-te sozinho se estás a cumprir a regra ou não.
E essa parte que cresce, e que a certa altura começa a produzir, é o primeiro tijolo da independência: no Cashfulness vês essa parte a subir rubrica a rubrica, sem teres de a imaginar.
Um aviso honesto: a forma em parábolas envelheceu, e o estilo soa antigo, por vezes solene.
Não o leias pelo estilo. Lê-o — ou guarda apenas isto daqui — pelo princípio: uma parte, antes de tudo o resto, sempre.
2. Vicki Robin e Joe Dominguez — Your Money or Your Life
Clason ensina-te a pôr ordem. O livro seguinte pergunta-te para que serve essa ordem.
Your Money or Your Life é um livro americano, publicado no início dos anos noventa, escrito por Vicki Robin e Joe Dominguez. É um dos textos que fundaram as finanças conscientes, muito antes de a palavra entrar na moda.
A sua ideia central é uma frase que, depois de lida, é difícil de esquecer: o dinheiro é energia vital.
Cada euro que gastas é tempo da tua vida que trocaste para o obter. Não é uma abstração: é o número de horas reais que deste em troca desse dinheiro.
Daí nasce a pergunta que o livro te põe na mão: esta coisa que estou a comprar vale as horas de vida que me custou?
O livro faz-te também uma conta precisa: quanto vale realmente uma hora do teu trabalho, depois de descontar tudo aquilo que o trabalho te custa para existir — deslocações, roupa, o stress a digerir. Quase sempre é mais baixo do que julgas.
E mostra-te que existe um ponto — eles chamam-lhe «o suficiente» — para lá do qual gastar mais não te torna mais feliz. É preciso reconhecê-lo, não o ultrapassar por inércia.
Se tens presente a frase que está por baixo do Cashfulness — o dinheiro é um instrumento para comprar tempo e liberdade — aqui encontra-la quase palavra por palavra, mas transformada em método.
É a ponte mais direta de toda esta lista.
Cada despesa é horas da tua vida. O teu património líquido — aquilo a que no Cashfulness chamamos ponto de situação — diz-te quantas horas já voltaste a comprar, e quão perto estás do ponto em que já não tens de as trocar.
O aviso: o livro é muito centrado nos Estados Unidos, em impostos, reformas e conselhos de investimento hoje datados nos pormenores práticos.
O pensamento, esse, aguenta-se intacto. Só tens de traduzir os exemplos para o teu país e para o teu presente — a ideia de fundo não envelhece.
3. Beppe Scienza — Il risparmio tradito
Robin e Dominguez perguntam-te para que serve o dinheiro. Beppe Scienza avisa-te de quem ganha com isso quando não o perguntas.
É um livro italiano, escrito por um matemático da Universidade de Turim que há anos olha com olho crítico para a indústria da poupança gerida.
A ideia central é incómoda: grande parte dessa indústria trabalha, de facto, contra o aforrador.
Comissões que corroem os rendimentos em silêncio. Produtos construídos para serem opacos. O balcão que propõe aquilo que convém a quem te vende, e não a ti.
Um exemplo concreto, sem nomes: dois produtos que investem exatamente nas mesmas coisas podem deixar-te no bolso, ao fim de vinte anos, dezenas de milhares de euros de diferença — só por causa de uma comissão anual que parecia pequena. A pequena percentagem, composta ao longo do tempo, pequena não é.
A lição que levas para casa, mesmo sem ler o livro, é uma só e vale para sempre: desconfia de quem te vende um produto disfarçado de conselho.
Há uma defesa prática, e é simples: pergunta sempre quanto te custa, em euros e por ano, tudo incluído. Se a resposta for vaga, a vagueza já é uma resposta.
Esta é a ponte para o Cashfulness, e é uma ponte feita de ausência.
O Cashfulness não tem produtos financeiros para te impingir. Não recebe comissões sobre o que fazes com o teu dinheiro, não te encaminha para um fundo, não tem um interesse escondido no número que vês.
Mostra-te os teus números, e nada mais. Um instrumento neutro faz falta precisamente porque existe tudo aquilo que Scienza descreve.
Outro nome muito mais popular nestes temas, Robert Kiyosaki, não está nesta lista: escrevemos sobre isso à parte, num artigo dedicado deste blogue, e é lá que explicamos porquê.
O aviso, necessário: o tom de Scienza é polémico, por vezes cortante.
Deve ser lido por aquilo que é — um aguilhão crítico que te treina a desconfiança certa, não uma sentença definitiva sobre cada produto ou pessoa. O valor está no olhar que te deixa, não em cada veredicto particular.
4. Séneca — De brevitate vitae (Sobre a Brevidade da Vida)
Scienza põe-te de sobreaviso quanto a quem desperdiça o teu dinheiro. Séneca lembra-te qual é a coisa que estás mesmo a desperdiçar.
É um ensaio moral do filósofo latino Séneca, escrito há quase dois mil anos. Nunca fala de dinheiro. Fala de tempo.
A ideia central vira do avesso a maneira como costumamos queixar-nos: não é verdade que tenhamos pouco tempo — é verdade que desperdiçamos imenso.
O problema não é a quantidade da vida, mas a atenção com que a gastamos.
Séneca distingue duas coisas que confundimos sempre: uma vida longa e uma vida vivida não são a mesma coisa. Quem anda sempre ocupadíssimo, escreve ele, é muitas vezes quem menos viveu — porque nunca parou o tempo suficiente para dar conta de para onde ia.
Séneca faz uma observação que, passados vinte séculos, ainda dói: defendemos o nosso dinheiro com unhas e dentes, e deixamos que qualquer um nos leve o nosso tempo — a única coisa que, essa sim, não volta atrás.
É o único livro desta lista que não tem nada a ver com dinheiro. E é precisamente por isso que o ilumina melhor do que os outros.
Porque gerir o dinheiro é, no fundo, gerir o tempo que o dinheiro te compra.
Todo o sentido do Cashfulness — saber onde estás, sem teres de pensar nisso de forma contínua — existe por causa disto: menos atenção gasta a preocupares-te com o dinheiro, mais vida deixada à vida. O dinheiro posto em ordem é tempo que recuperas.
É o mesmo gesto que Séneca aconselha para o tempo: de vez em quando para e olha para onde ele está a ir. Uma vez por semana, com os números à frente, é exatamente esse parar.
Aqui não é preciso aviso nenhum.
Não há nada a atualizar, nada de datado a traduzir. Um texto que se aguenta a dois mil anos de distância não precisa que eu o defenda.
Lê-o. É curto, e nenhum livro de finanças te dirá esta coisa com igual nitidez.
5. Vittorio Giusti — Strategie per la Finanza Personale
E chegamos ao quinto. Aquele que fui eu que escrevi.
Digo-o de forma simples, sem rodeios: é meu, e é precisamente por isso que não lhe farei o elogio. Ponho-o nesta lista porque é coerente com os outros quatro, não porque tem o meu nome.
É um livro prático de finanças pessoais. Explica, passo a passo e com exemplos concretos, como levar para a gestão da casa o mesmo rigor das partidas dobradas — a técnica com que as empresas mantêm as contas em equilíbrio há séculos.
Parte-se do zero: como construir um plano de contas para uma família, como registar o que entra e o que sai, como ler o resultado sem ser contabilista. Mesmo que nunca venhas a comprar o livro, a ideia a levar para casa é esta: o método das empresas funciona, tal e qual, também para uma família.
Há um ponto em que tenho de ser completamente transparente contigo.
No livro recomendo, como ferramenta operativa, o GNUCash: um software livre e gratuito de contabilidade em partidas dobradas, para computador. É uma excelente aplicação — potente, sólida, e não custa nada.
Então porque construí o Cashfulness?
Porque quando escrevi esse livro o Cashfulness ainda não existia. O GNUCash era — e continua a ser — a escolha séria disponível, e recomendei-o de boa-fé.
O ponto que me interessa que te chegue com clareza é este: os raciocínios do livro continuam todos válidos. Aliás, com o Cashfulness valem por maioria de razão.
O livro não envelheceu. Muda, para melhor, a ferramenta recomendada — não o pensamento que está por baixo.
O Cashfulness herda o mesmo rigor das partidas dobradas, mas é muito mais simples, mais moderno e mais funcional do que o GNUCash, e foi pensado para quem não é contabilista.
Dito numa linha: se leres o livro hoje, substitui mentalmente o GNUCash pelo Cashfulness. O método é idêntico, a experiência muito mais simples.
O livro está disponível na Amazon.
O fio que os mantém juntos
Cinco livros muito diferentes. Um americano dos anos vinte, dois autores das finanças conscientes, um matemático italiano polémico, um filósofo latino, e eu.
E, no entanto, se os alinhares, dizem todos a mesma coisa a partir de ângulos diferentes.
Clason: põe ordem, para que o dinheiro trabalhe para ti e não tu para ele.
Robin e Dominguez: esse dinheiro é tempo da tua vida, trata-o como tal.
Scienza: não deixes que outros transformem o teu meio no fim deles.
Séneca: o recurso que verdadeiramente escasseia não é o dinheiro, é o tempo.
E o quinto, o meu, tenta pôr tudo isto num método que podes aplicar em tua casa.
O fio é um só: o dinheiro é um instrumento para comprar tempo e liberdade — não um sonho a perseguir, nem um inimigo a combater.
Todos os cinco, cada um à sua maneira, tiram o dinheiro do centro da cena e põem lá a tua vida.
Por isso o Cashfulness te pede poucos minutos, e não o teu dia: o método serve para pensares menos no dinheiro, não mais.
É, se quiseres, o sítio onde estas ideias deixam de ser leitura e passam a ser prática diária. A beta está a abrir — sem pressa, quando te apetecer.
— Vittorio