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O que o Cashfulness deve a Kiyosaki, e aquilo em que não quer tornar-se

06 de abril de 20268 min

Li Rich Dad Poor Dad (Pai Rico, Pai Pobre) de Robert Kiyosaki no início dos anos dois mil, quando já era um livro famoso mas ainda não o fenómeno global em que se viria a tornar.

Li-o como consultor financeiro registado, com a curiosidade de quem procura todas as maneiras possíveis de olhar para a mesma coisa.

E aquele livro deixou-me duas coisas: uma que guardei e outra que deixei pelo caminho.

A coisa que guardei é uma intuição simples, mas que para quem nunca estudou contabilidade é potentíssima: nem tudo o que possuis é igual.

Algumas das coisas que possuis põem dinheiro nos teus bolsos — um apartamento arrendado, uma ação que paga dividendos, uma atividade que produz lucros.

Outras das coisas que possuis tiram dinheiro dos teus bolsos, mês após mês — o carro, a casa de habitação, o guarda-roupa, o barco de recreio.

A maior parte das pessoas, até ao momento em que lê uma página que apresenta esta distinção, nunca a pensou nestes termos. Pensa apenas "tenho tanto no banco" e "tenho a minha casa". Não distingue. Não vê a direção.

Kiyosaki popularizou esta distinção como poucos outros no mundo. E estamos-lhe gratos por isso.

A coisa que deixei pelo caminho é o como Kiyosaki vendeu esta intuição ao mundo, e tudo o que lhe foi agarrando por cima nos anos seguintes.

No Cashfulness construímos algo que parte da mesma intuição, mas que caminha noutra direção.

Neste artigo quero explicar-te onde nos aproximamos de Kiyosaki, e onde nos afastamos dele.

O que Kiyosaki viu bem

Para ser justo com um autor que vendeu mais de quarenta milhões de exemplares, vale a pena começar por aquilo que viu bem.

São pelo menos três coisas.

Quebrou a cultura do saldo estático.

Durante gerações, as pessoas pensaram a sua saúde financeira olhando para o saldo da conta à ordem.

Kiyosaki contribuiu para deslocar essa atenção para algo mais dinâmico: o que os teus bens produzem e o que te custam.

É uma mudança de olhar que muda tudo. Não quanto vales, mas em que direção estás a ir.

Desmontou a equação "casa própria = investimento".

Para a cultura italiana do século XX, comprar casa era automaticamente um investimento.

Kiyosaki pôs por escrito, com exemplos simples, que uma casa em que moras — enquanto lá moras, pagas o crédito, pagas os impostos e as manutenções — não está a pôr dinheiro nos teus bolsos.

É uma escolha de vida, talvez acertada, mas não é um ativo produtivo em sentido estrito.

Neste ponto o Cashfulness está em pleno acordo, e falámos disso em detalhe no artigo dedicado aos Ativo+ e Ativo- neste blogue.

Incentivou a reflexão sobre a independência face ao rendimento do trabalho.

A ideia de que o próprio capital possa, ao longo do tempo, trabalhar para nós tanto quanto nós trabalhamos para ele é uma ideia libertadora.

O Cashfulness partilha-a, e põe-na no centro do conceito de independência financeira: ter Ativos+ suficientes para cobrir as próprias despesas correntes.

Nestas três coisas, estamos-lhe em dívida. Ponto. Sem polémica.

O que Kiyosaki exagerou (ou errou)

Dito isto, o "pacote Kiyosaki" não se esgota nos três pontos acima.

Pelo contrário, a maior parte do que saiu do livro nos vinte anos seguintes vai numa direção que não queremos seguir.

A agressividade como método.

Kiyosaki constrói muitas das suas mensagens sobre uma estrutura de inimigos: o sistema escolar que te torna dependente, o "Poor Dad" que é o pai pobre a não imitar, os consultores financeiros que te tentam enganar, os trabalhadores por conta de outrem que são "escravos" da rat race.

É retórica polarizadora. Funciona para vender livros.

Não funciona para construir calma.

No Cashfulness não construímos inimigos. Não há um sistema "mau" a contrapor a um método "salvífico". Há um quadro confuso a tornar claro, e mais nada.

O imobiliário como religião.

Nos anos seguintes ao livro, Kiyosaki deslocou-se cada vez mais para uma prescrição muito específica: comprar imóveis para arrendar, de preferência com alavancagem (dívida), como via principal para a independência.

No Cashfulness não prescrevemos nenhuma classe de ativos específica.

Os Ativos+ podem ser imóveis, mas também fundos, ETF, obrigações que pagam cupões, dividendos, participações em atividades empresariais, obras do intelecto que geram licenças.

Qual é o mix certo para ti depende da tua vida, do teu carácter, do país onde vives, do momento histórico, da tua idade.

O Cashfulness não tem uma resposta única porque a pergunta não tem uma resposta única.

A promessa da riqueza.

O subtexto de Kiyosaki é "vais ficar rico se seguires o método".

O Cashfulness não promete riqueza.

A riqueza é um termo vago e culturalmente carregado, e nós não vendemos sonhos.

Prometemos clareza, e a partir daí as escolhas fá-las tu, e são as tuas escolhas que determinam aquilo em que te vais tornar.

O Cashfulness é a ferramenta, não o resultado.

O FIRE e a saída da rat race.

Uma boa parte do movimento FIRE — Financial Independence, Retire Early — tem raízes no eco de Kiyosaki. A ideia de que o objetivo final é deixar de trabalhar o mais cedo possível.

O Cashfulness não é contra a independência financeira. Como disse, põe-na no centro.

Mas a liberdade que te queremos ajudar a construir não é uma fuga: é uma escolha.

Quando chegas ao ponto em que os teus Ativos+ cobrem as tuas despesas correntes, és livre. A partir daí poderias deixar de trabalhar.

Muitos continuam por opção, porque o trabalho os alimenta ou porque há uma obra que querem levar até ao fim. Outros abrandam. Outros mudam de ofício. Outros dedicam-se à família, aos netos, a uma paixão, a uma associação de voluntariado.

A liberdade é poder escolher. Não a obrigação de fugir.

O tom de guru.

Nos últimos quinze anos Kiyosaki tornou-se uma figura mediática que vende cursos de milhares de euros, lança previsões catastrofistas sobre os mercados, cultiva um estilo de guru.

Não é o nosso estilo, não é o nosso ofício, não é a nossa marca.

O Cashfulness quer-te como adulto consciente, não como discípulo.

Vocabulário diferente, motor mais sólido

Há também uma diferença técnica que vale a pena nomear brevemente.

Kiyosaki usa o par asset / liability: duas categorias binárias, simplificadas.

O Cashfulness usa Ativo+ e Ativo- — vocabulário próprio, sóbrio, e sobretudo assente num sistema completo de partidas dobradas, a mesma técnica que as empresas usam há seiscentos anos para fazer as suas contas.

A diferença não é apenas lexical.

As partidas dobradas mostram não só o que possuis e o que deves, mas como se movem os fluxos ao longo do tempo, e permitem-te ver a saúde financeira com quatro categorias distintas (Ativos, Passivos, Custos, Receitas) em vez de duas.

A estrutura é mais sólida. Contámo-lo no artigo sobre as partidas dobradas para quem não é contabilista, neste blogue.

E encontra-lo explicado de forma prática, com exemplos e com o GNUCash como ferramenta didática, no livro que escrevi — Strategie per la Finanza Personale, disponível na Amazon. É o livro que eu próprio gostaria de ter encontrado, há vinte anos, depois de ler Kiyosaki.

Para quem é o Cashfulness, se leste Kiyosaki

Há uma pessoa que leu Rich Dad Poor Dad e dele tirou alguma coisa de bom — a distinção ativo/passivo entrou no seu modo de pensar o dinheiro.

Mas também tentou pô-la em prática seguindo o guião proposto pelo autor — cursos, imóveis para arrendar com alavancagem agressiva, a ideia de ter de "sair da rat race" em poucos anos — e viu-se ansiosa, sob pressão, com uma vida financeira mais complexa do que antes e menos serena do que esperava.

Ou então leu o livro, percebeu o ponto, mas ficou por aí porque o resto do pacote — o tom, a urgência, a ostentação — não lhe dizia respeito.

Para esta pessoa, o Cashfulness é uma proposta de evolução calma.

A mesma intuição de partida, uma estrutura muito mais sólida, vocabulário respeitoso, nenhuma promessa de riqueza, nenhuma pressa de "sair da rat race", nenhum guru no pódio.

Há um método. Aplica-se com calma. Funciona ao longo do tempo, não nos trinta dias seguintes a um seminário.

E se nunca leste Kiyosaki mas chegaste a este artigo por outras vias, também está bem.

Nada do que dizemos aqui depende de ter lido Kiyosaki. A distinção entre Ativo+ e Ativo- encontra-la contada de forma própria, dentro do Cashfulness, sem ser preciso ter passado pelo Rich Dad.

Em síntese

Três coisas, uma sobre a outra, para fechar.

Kiyosaki popularizou uma intuição importante. Reconhecemo-lo abertamente.

Kiyosaki construiu sobre essa intuição um método, um tom e uma promessa que não partilhamos. Dizemo-lo abertamente.

O Cashfulness propõe uma evolução calma dessa mesma intuição, sem polémica e sem endosso, assente num sistema contabilístico rigoroso (partidas dobradas) e numa promessa mais sóbria (clareza, não riqueza).

Se és a primeira pessoa que descrevi — quem leu Kiyosaki e daí tirou alguma coisa, mas não se revê na agressividade — o Cashfulness é provavelmente o teu lugar.

Esperamos por ti na lista de espera da beta em cashfulness.com/beta.

Se, pelo contrário, és um seguidor convicto do método Kiyosaki clássico — cursos, imobiliário agressivo, FIRE como objetivo principal — não te vais sentir à vontade no Cashfulness, e é justo que assim seja.

O mundo é grande, há ferramentas para todos os estilos.

O Cashfulness foi pensado para quem procura calma e método ao mesmo tempo. A partir dessa estrutura, é o que fazemos, e é a única coisa que fazemos.

— Vittorio