Há um momento que conheço bem, porque mo contam muitas vezes.
É quando alguém abre pela primeira vez as suas contas a sério. Todas juntas. O que tem, o que deve, sem mais rodeios.
E antes ainda de olhar para o número, há um pensamento que passa.
"Espero que ninguém veja isto."
Não "espero que o número seja alto". Esse vem depois.
Primeiro vem o medo de sermos olhados.
Normalmente, quando se fala de privacidade numa app, fala-se de dados. Servidores, palavras-passe, criptografia. Coisas técnicas, importantes, sobre as quais já escrevi noutro lugar.
Hoje quero falar da outra metade da privacidade. A que não está nos servidores.
A que está no estômago de quem abre a app.
O medo verdadeiro não é falhar. É ser visto a falhar
Faço uma distinção, porque a meu ver é o coração de tudo.
Falhar faz parte da vida. Um mês torto, uma dívida que pesa, um projeto que não correu bem, poupanças mais magras do que gostarias. Acontece a toda a gente. Sabemo-lo.
Mas há uma segunda coisa, e dói muito mais do que a primeira.
Sermos vistos enquanto falhamos.
Não é o mesmo medo. É outro, mais antigo, mais social. É o medo do julgamento. Aquele que nos faz baixar a voz quando, ao jantar, alguém pergunta "mas quanto ganhas?". Aquele por causa do qual o dinheiro continua a ser o último verdadeiro tabu — mais do que o sexo, mais do que a saúde.
Contamos a nós próprios que é questão de educação, de reserva. Em parte é verdade.
Mas por baixo, muitas vezes, há algo mais nu: o medo de que, se os outros vissem os nossos números reais, pensassem que não fomos capazes.
E esse medo não espera pelos outros.
Ativa-se mesmo quando o único que poderia olhar é uma ferramenta. Uma app. Um software.
Porque é que uma app de finanças toca precisamente nesse nervo
Pensa no que te pede, normalmente, uma app de finanças pessoais.
Pede-te que ponhas lá dentro as coisas de que não falas de bom grado nem com quem te quer bem.
Quanto ganhas de verdade, não quanto deixas crer.
Quanto puseste de lado. Ou quão pouco.
Aquela dívida que arrastas contigo e que esperavas já ter fechado.
A despesa de que te envergonhas um pouco, que voltarias a fazer igual mas preferias não ter de explicar.
São dados, no papel. Na prática são pedaços de ti.
E então acontece uma coisa que vi muitas vezes, e que também eu senti.
A app, descarrega-la. Talvez até a abras. Depois, no momento de escrever os números verdadeiros, paras.
Não porque sejas preguiçoso.
Porque, no fundo, escrever esses números algures é como dizê-los em voz alta. E dizê-los em voz alta, quando tens medo do julgamento, é a última coisa que queres fazer.
Assim a app fica vazia. Ou preenche-la a meio, com os números bonitos e não com os incómodos.
E uma app de finanças preenchida a meio não serve para nada. Pior: é pior do que nada, dá-te a ilusão de ver, enquanto estás a olhar apenas para a parte de que gostas.
Tu, provavelmente, já chegas com algumas cicatrizes
Sobre isto escrevi um artigo inteiro, por isso aqui digo-o em resumo.
Quase ninguém chega a uma app de finanças pessoais como curioso sereno. Chega-se depois de algumas tentativas que correram mal: o Excel abandonado em fevereiro, o caderno deixado de lado, a app "fácil" que contava os cafés mas nunca te dizia onde estavas de facto.
A essas tentativas dou um nome: quem sobe a bordo já naufragou uma vez.
E cada naufrágio deixa o mesmo pensamento debaixo da pele: "sou eu que não sou capaz".
Pois bem. Se já partes com esse pensamento, a ideia de que agora uma app possa registar a tua incapacidade — vê-la, arquivá-la, talvez mostrá-la a alguém — não te convida a tentar de novo.
Convida-te a fechar a app e a não pensar mais nisso.
A vergonha, aqui, não é um pormenor emocional. É um muro prático. É a razão número um pela qual as pessoas nunca olham para as próprias contas.
E um muro assim não se derruba com mais uma funcionalidade. Derruba-se retirando o olho que a pessoa teme.
O que retirámos, de propósito
Quando pensámos no Cashfulness, tínhamos isto à frente desde o início.
Não bastava proteger os dados. Era preciso retirar a sensação de sermos olhados.
São dois trabalhos diferentes. O primeiro é técnico. O segundo é psicológico. Enfrentámos os dois, e o segundo passa por escolhas muito concretas.
A primeira: não te perguntamos quem és.
Para usares o Cashfulness registas-te com uma alcunha. A que quiseres — "Capitão", "Vela", um nome de fantasia qualquer — mais um email e uma palavra-passe.
Não te pedimos o nome. Não te pedimos o apelido. Nada de número de contribuinte, nada de data de nascimento, nada de morada, nada de número de telefone.
Dito assim parece um pormenor burocrático. Não é.
Quer dizer que os números que escreves dentro da app não estão presos à pessoa real que és. São as contas de uma alcunha. Tu sabes que por trás está a tua vida; para o sistema, é o "Capitão" com umas contas.
Não é anonimato para te esconderes do mundo. É anonimato para te tirar o peso de cima enquanto escreves.
Há uma diferença enorme entre escrever "tenho 4 000 euros de dívidas" sob o teu nome e apelido, e escrevê-lo como uma coordenada de um barco que se chama como tu quiseres.
Os números são os mesmos. O peso, não.
E os documentos? Aí a fechadura é ainda mais apertada
Há um segundo nível, para as coisas mais delicadas.
Dentro do Cashfulness, se quiseres, podes carregar documentos: o extrato bancário, uma fatura, um contrato, uma apólice. Coisa pesada, cheia de dados teus.
Esses documentos são fechados à chave no teu dispositivo, antes ainda de partirem. A chave nasce de ti e nunca sai do teu telemóvel ou do teu computador.
Nos nossos servidores, esses documentos são um bloco de ruído digital. Ilegível.
Não os podemos ler nós, que construímos a app. Não os pode ler quem gere os servidores. Não os poderia ler um atacante que um dia entrasse nos nossos sistemas.
Esta é a parte técnica, e tem um nome — a criptografia ponta a ponta — sobre a qual escrevi um artigo à parte, sem jargão, porque merece espaço próprio.
Aqui interessa-me outra coisa.
Interessa-me o que essa fechadura significa para o estômago, não para os servidores.
Significa que o documento mais embaraçoso que pudesses carregar — o extrato bancário do pior mês da tua vida — não será visto por ninguém. Literalmente ninguém a não ser tu.
Não porque prometemos não olhar para ele.
Porque nos retirámos, de propósito, a possibilidade de olhar para ele.
"Nem nós": a parte que mais pesa
Chego ao ponto que, a meu ver, faz a diferença entre uma promessa de privacidade que tranquiliza e uma que liberta de verdade.
Muitas apps dizem-te: "os teus dados estão seguros, não os daremos a ninguém".
É uma promessa virada para fora. Para os outros: os anunciantes, as empresas, os mal-intencionados.
Mas a vergonha, já te disse, não espera pelos outros. Ativa-se mesmo só diante da ferramenta. E então a promessa que conta de verdade é outra, e é virada para nós próprios, isto é, para quem construiu a app:
não te julgamos. Não podemos. E sobretudo não queremos.
Não há, em lado nenhum, uma pessoa da nossa equipa a olhar para as tuas contas e a pensar alguma coisa de ti.
Não há um sistema que, nos bastidores, te dá uma nota, te mete numa faixa, te compara com a média dos outros para te dizer onde te situas.
Não te chegam notificações a repreender-te. Nada de ecrãs vermelhos, nada de "estás a gastar de mais!", nada de vozinha a fazer sermões. As poucas coisas que a app te escreve são serenas e estão ao teu serviço — e quando há algo para olhar, digo-to com calma e, sempre que posso, com uma saída.
Não há uma pontuação de "bom poupador" a escalar, nada de medalhas, nada de classificações. Essa coisa — chamam-lhe gamification — transforma o teu dinheiro numa caderneta de notas. E uma caderneta de notas é exatamente o olho que julga, metido outra vez dentro da app pela porta das traseiras.
O Cashfulness não te dá notas.
Dá-te uma coordenada.
Uma coordenada não te julga. Diz-te apenas onde estás.
Porque é também uma questão ética, não só psicológica
Podia ficar-me pela psicologia: retirar a vergonha faz-te usar a app, usar a app faz-te ver as contas, ver as contas dá-te calma. Tudo verdade, e chegaria.
Mas por baixo há uma escolha ética, e quero dizê-la explicitamente.
Uma app que vê os teus números e te conhece pelo nome tem um poder sobre ti. Pode vender-te algo no momento certo. Pode empurrar-te para um produto porque ganha com isso. Pode, mesmo que seja só isso, fazer-te sentir observado — e quem se sente observado gasta, escolhe, vive de outra maneira.
Nós não queremos esse poder.
Não porque sejamos melhores do que os outros. Porque um poder assim, mais cedo ou mais tarde, alguém o usa. E a única forma séria de não o usar é não o ter.
Por isso não vendemos produtos financeiros e não recebemos comissões sobre o que fazes com o teu dinheiro. O número que vês não nos rende nada, em nenhuma direção: seja ele alto ou baixo, para nós é igual.
Há, no entanto, uma coisa que te quero dizer antes que a descubras sozinho, porque a transparência vale pouco quando chega tarde.
Há, e vai haver, ligações para oportunidades de poupança — comparações de faturas, serviços que te fazem gastar menos em coisas que já pagas. Se seguires um desses links e acabares por ativar alguma coisa, nós podemos receber uma remuneração.
Escrevo-to aqui, às claras, em vez de o pôr no fundo de uma página de condições.
E então a pergunta certa é: isto não é exatamente o poder que eu dizia não querer?
Não, e a diferença toda cabe numa linha: os teus dados não saem daqui. Nunca. Para ninguém.
Não mandamos os teus números a quem está do outro lado do link. Não lhes dizemos quanto gastas, quanto tens, que contas manténs. Não lhes passamos o teu nome — que, aliás, nunca no-lo deste.
O link é um sinal de trânsito, não uma porta giratória. Está ali, tu decides se olhas. Se o seguires, chegas a um site que não é o nosso e és tu a pôr os teus dados, se quiseres, sabendo a quem os estás a dar. Se não o seguires, não aconteceu nada e ninguém o registou.
A linha que não atravessamos é essa: ganhar mostrando-te alguma coisa é uma coisa, ganhar vendendo-te a ti é outra. A primeira fazemo-la à luz do dia. A segunda não — e não é uma promessa de comportamento: é que os teus dados, simplesmente, não estão cá para serem vendidos.
Retirarmos a nós próprios a possibilidade de te julgar e de nos aproveitarmos é a mesma escolha, vista de dois lados.
Do teu lado chama-se dignidade: os teus números são só teus.
Do nosso chama-se honestidade: atámos as nossas próprias mãos antes de podermos errar.
Uma noite com o Marco
Faço um exemplo, que é mais claro do que mil raciocínios. Os pormenores são inventados, mas a cena vi-a dezenas de vezes.
O Marco tem 41 anos. Visto de fora parece bem: trabalho, família, uma casa. Por dentro, no dinheiro, tem um nó que não desata há anos.
Tem 9 000 euros na conta e não sabe bem se é muito ou pouco. Tem um crédito à habitação, um financiamento do carro, e duas ou três prestações pequenas que prefere não contar juntas, porque contá-las juntas lhe dá ansiedade.
Experimentou uma app, uma vez. Quando chegou o momento de escrever a dívida verdadeira, fechou-a. Disse a si próprio "depois penso nisso". Nunca mais pensou.
O problema não era o número. O problema era que escrevê-lo lhe parecia uma confissão. Como admitir a alguém "pronto, geri mal, aqui está, preto no branco".
Nessa noite, com o Cashfulness, acontece uma coisa diferente.
Regista-se como "Marco41" — não como Marco Rossi. Começa a pousar as peças: a conta, o crédito à habitação por pagar, o financiamento, e sim, também as três prestações pequenas, porque afinal ali dentro ninguém o vê.
Escreve-as todas.
Pela primeira vez em anos, põe-nas no mesmo sítio. E enquanto as escreve, não há uma vozinha a repreendê-lo, não há um vermelho a piscar, não há a sensação de que alguém, algures, esteja a tirar apontamentos sobre ele.
Há apenas um número que, devagar, ganha forma.
No fim, o seu património líquido é mais baixo do que esperava. Mas não é o golpe que temia.
É, estranhamente, um alívio.
Porque o número verdadeiro, mesmo quando é mais pequeno, pesa muito menos do que o nevoeiro que havia antes. E porque o Marco, finalmente, pôde olhar para ele sem ninguém a olhar para si enquanto o fazia.
Nessa noite o Marco não arrumou as suas contas. Vai precisar de tempo.
Fez uma coisa mais pequena e mais importante: deixou de ter medo de as abrir.
O sentido, no fundo
A privacidade radical do Cashfulness — a alcunha, nenhum nome nem apelido, os documentos que não podemos ler, nenhum julgamento, nenhuma caderneta de notas — costuma ser contada como uma questão técnica e ética. E é. Escrevi o quadro completo no pilar sobre a privacidade, se quiseres os dois níveis por inteiro.
Mas o motivo pelo qual fazíamos questão dela até este ponto é mais humano do que isso.
É que não podes ter calma com o teu dinheiro se tens medo do teu dinheiro.
E muitas vezes não tens medo do dinheiro em si. Tens medo do que os outros — ou uma ferramenta, ou tu próprio ao espelho — vão pensar de ti quando os números estiverem ali, a descoberto.
Retirar esse medo não é um serviço a mais. É a condição para que tudo o resto funcione.
Os teus números são só teus.
Ninguém os julga.
Nem nós.
E a partir daí, finalmente, podes olhar para eles.
— Vittorio