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Cultura

Três livros debaixo do guarda-sol para pensar no dinheiro sem stress

14 de agosto de 20268 min

Há uma coisa que o verão faz melhor do que qualquer curso.

Para-te.

Entre um mergulho e outro, à sombra, com o telefone finalmente longe, tens duas ou três horas vazias. É o momento em que a cabeça se desenrola e algum pensamento que tinhas posto de lado volta à tona.

Muitas vezes, entre esses pensamentos, está o dinheiro.

Por isso pensei em deixar-te três livros para pores na mala. Não são manuais, não são "as dez regras para", não são gráficos para estudar de lápis na mão. São três livros que se leem leves, debaixo do guarda-sol, e que no fim do verão te mudaram um pouco o olhar.

São diferentes dos cinco sobre os quais escrevi noutro texto — aquela era uma bibliografia comentada, séria. Esta é a minha prateleira de férias: mais leve, mais oblíqua. Nenhum destes três fala de fórmulas.

E se destes três leres só um, está ótimo. São livros que funcionam mesmo em pequenas doses.

Um: para perceber porque nos enganamos (e está tudo bem assim)

Começo pelo mais recente e pelo mais direto: The Psychology of Money (A Psicologia do Dinheiro), de Morgan Housel.

É um livro americano de há poucos anos, feito de capítulos curtos e independentes. Podes abri-lo ao calhas, ler vinte minutos, fechá-lo, retomá-lo depois do banho. Perfeito para a praia.

A ideia central é libertadora: com o dinheiro não te sais mal por não saberes matemática.

Sais-te como te sais por causa da maneira como te comportas.

Housel di-lo sem rodeios: gerir bem o dinheiro tem pouco a ver com o quão inteligente és e muitíssimo a ver com a forma como te comportas. E o comportamento é difícil de ensinar, mesmo a quem percebe de números.

Isto, debaixo do guarda-sol, é um pensamento que te tira um peso de cima. Quer dizer que não precisas de te tornar um especialista. Precisas de construir alguns hábitos simples e de os manter.

Há depois um capítulo que me ficou colado. Housel conta a história de um homem com um trabalho modesto que, pondo de lado com constância durante décadas, se vê no fim com um património importante. Não por causa da jogada certa: por causa do tempo que deixou trabalhar. Ao lado põe a história oposta — gente brilhante, salários altos, que acabou mal por ter querido esticar demasiado a corda.

A moral não é "vive de privações". É mais subtil: a constância aborrecida vence a jogada genial, quase sempre.

E depois há a palavra que regressa em todos estes livros, e que é o coração do Cashfulness: o suficiente.

Housel dedica-lhe páginas belíssimas. O ponto mais perigoso, diz, é não saber quando já te chega — porque sem essa fronteira mudas a fasquia de lugar sempre que lá chegas, e corres para sempre.

Eis a ponte com aquilo que eu tento fazer. Saber quanto vale aquilo que tens — aquilo a que no Cashfulness chamo o teu ponto de situação, ou seja, tudo o que possuis menos tudo o que deves — não serve para perseguir um número maior.

Serve para reconhecer quando um número já é suficiente.

Para levar para casa, mesmo sem abrir o livro: os teus resultados com o dinheiro dependem mais da forma como te comportas do que do quanto és bom. É uma boa notícia. Significa que está ao teu alcance.

Dois: para te lembrares de quanto te custa mesmo aquilo que compras

O segundo é um clássico, e para o verão é perfeito: Walden, de Henry David Thoreau.

Meados do século XIX, América. Thoreau vai viver dois anos para uma cabana que constrói sozinho, à beira de um lago, no meio da floresta. Come pouco, trabalha pouco, observa muito. Depois escreve o que aprendeu.

Dito assim parece o diário de um eremita. Mas no meio das páginas sobre a natureza — que, lidas na praia, têm uma paz muito própria — está uma das ideias mais afiadas alguma vez escritas sobre dinheiro.

Thoreau põe a coisa assim: o custo de uma coisa é a quantidade de vida que dás em troca para a ter.

Para um segundo nesta frase. Não o preço. A vida.

Aquele par de sapatos, aquele objeto que te encheu o olho, aquela subscrição que pagas e não usas: o seu verdadeiro custo não é o número na etiqueta. É o tempo que tiveste de trabalhar para o pagar.

É a mesma ideia que, século e meio depois, se tornou o alicerce das finanças conscientes. Thoreau lá chegou primeiro, a partir de uma cabana, sem folhas de cálculo.

E acrescenta-lhe um corolário que, em férias, soa ainda mais certo: a maior parte daquilo a que chamamos necessidades, olhando bem, não o é. Muitas coisas compramo-las por inércia, não por precisarmos.

O verão é o momento ideal para dar por isso. Com poucas coisas na mala, percebes de quão pouco precisas realmente para estar bem. Um dia de praia não custa quase nada, e muitas vezes vale mais do que mil compras.

É exatamente este o espírito que está por baixo do Cashfulness. O dinheiro é um instrumento para comprar tempo e liberdade — não um sonho a perseguir, nem um inimigo a combater. Thoreau, da sua cabana, já tinha percebido tudo.

Para levar para casa: antes da próxima compra que não seja uma verdadeira necessidade, tenta perguntar-te quantas horas do teu trabalho vale. Às vezes a resposta faz-te mudar de ideias. Às vezes não — e então compra-la descansado, porque sabes o que estás a trocar.

Três: para deixar de perseguir (um romance, não um ensaio)

O terceiro não fala de dinheiro nem por engano. É um romance: Siddhartha, de Hermann Hesse.

Pu-lo aqui de propósito. É o mais leve dos três — uma história, lê-se como um conto — e é precisamente por isso que chega onde os outros dois não chegam.

Hesse escreve-o no início dos anos vinte. É a história de um homem, Siddhartha, que atravessa a vida à procura do sentido das coisas. A certa altura torna-se também rico: aprende a comerciar, acumula, ganha. Tem tudo. E descobre que ter tudo não lhe deu nada.

Há uma página em que Hesse descreve o que acontece quando o dinheiro deixa de ser um meio e passa a ser o jogo que jogas. Siddhartha, no início, comercia com leveza, quase por divertimento. Depois o jogo apodera-se dele. E quanto mais ganha, mais vazio se sente.

É o retrato mais nítido que conheço de uma armadilha em que todos caímos, um pouco: trocar o meio pelo fim. Acumular por acumular, esquecendo porque tínhamos começado.

Não te conto como acaba — é um romance, seria uma pena. Digo-te apenas que a paz, quando Siddhartha a encontra, não está em ter mais. Está em deixar de perseguir.

Lido na praia, com o barulho das ondas, este livro faz um efeito estranho e bonito. Lembra-te de que a corrida ao "sempre um pouco mais" é uma escolha, não um destino. E de que se pode sair dela quando se quiser.

É por isso que o ligo ao Cashfulness, ainda que Hesse não faça uma única conta.

Tudo aquilo que tento construir serve para uma coisa só: tirar-te o dinheiro do centro da cabeça. Vê-lo com clareza, uma vez por semana, durante dez minutos — e depois voltar a viver.

Não para o perseguires melhor. Para o perseguires menos.

Para levar para casa: a sensação de nunca ter que chegue não é um dado sobre o teu dinheiro. É um dado sobre a tua cabeça. E sobre a cabeça, ao contrário da conta, tens poder total.

O fio, e uma mala

Três livros muito diferentes. Um americano que explica comportamentos, um eremita do século XIX numa cabana, um romance alemão passado na Índia.

E, no entanto, puxam todos para o mesmo lado.

Housel: conta a forma como te comportas, não o quanto és bom — e aprende a reconhecer quando já é suficiente.

Thoreau: aquilo que compras, pagas em tempo de vida, não em euros.

Hesse: perseguir mais não traz paz; deixar de perseguir, sim.

É o mesmo fio que segura tudo aquilo que escrevo: o dinheiro é um instrumento, não uma meta. Serve para te comprar tempo e escolha, não para te manter acordado à noite.

Portanto: mete um deles na mala. Lê-o sem lápis, sem apontamentos, sem a pressa de "aplicar" seja o que for.

Depois, talvez em setembro, quando voltares a pegar nos teus números com a cabeça um pouco mais desanuviada, estas três ideias ainda lá estarão. Os bons livros sobre dinheiro funcionam assim: trabalham depois, quando menos esperas.

Bom verão, e boas leituras.

— Vittorio